quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Ano Novo

A noite vai chegando
O branco vai cegando
Os fogos explodindo
Nas estrelas cansadas do céu

Quero que o ano passe
Que o sol se abra
Que o tempo voe
Que a alma descanse


O mundo e todos seus sentimentos
Girando, gritando, sucumbindo
Nos eternos traços dos momentos

Quero que o novo ano traga só alegrias
Quero que a contagem regressiva varra
Para bem longe, todos os meus lamentos.


quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Soneto de Natal

Machado de Assis


Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno,
—Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto . . . A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Tempo - Carlos Drummond de Andrade

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí, entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente".

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Amigos

Deveríamos ter mais tempo para os nossos amigos. Não apenas encontrá-los para o amigo secreto do final do ano, ou para o encontro que, com muito esforço, sai só uma vez a cada 10 meses. Não vê-los apenas nos aniversários da turma ou nos reencontros do colégio. Deveríamos sair para bater mum papo, ali, na padaria da esquina mesmo. Deveríamos ligar para perguntar apenas se está tudo bem. Deveríamos doar mais do nosso tempo aos amigos. Deveríamos nos importar mais, mesmo que eles não deêm o devido valor. Deveríamos dizer que sentimos saudades.
Impossível estarmos disponíveis o tempo todo para eles, mas são os verdadeiros que estarão sempre ali para nós. Para os amigos que moram longe, mas estão sempre por perto, para os amigos que moram perto, mas nos vemos apenas uma vez por ano, para os amigos que fizeram parte de momentos importantes da nossa vida, para os amigos que moram no meu coração, eu desejo um Feliz Natal e um Ótimo Ano Novo e que em 2009 todos vocês estejam mais presentes, de uma forma ou de outra.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Convulsão Feminina - by Pai


Meu pai acha que estamos vivendo uma fase de convulsão feminina. Isso mesmo, esse foi o nome que ele arranjou para designar uma fase de histeria por parte das mulheres. Segundo sua pesquisa de campo, ele detectou 6 casos nas últimas duas semanas, em que as mulheres surtaram, gritaram, deram chilique e/ou ficaram histéricas. Ainda de acordo com a teoria, o surto acontece sem motivo aparente, o que talvez não seja comprovado e nós, mulheres, jamais vamos concordar com isso.


Para ele, a convulsão feminina está associada ao cosmos. Algo do tipo: quando Marte cruza com Júpiter na décima órbita, às 22:34, nos dias ímpares do ano bissexto, em que o ascendente de elemento água está com influência de Mercúrio. Ou pode haver uma outra explicação que requer uma pesquisa mais abrangente e na qual ele sugeriu me engajar. "Você pode escrever um livro sobre isso! Com certeza há alguma coisa que ninguém descobriu ainda". Não, pai, acho que não será o caso. Afinal, as mulheres são assim mesmo. Deve ser mais um caso de hormônios e uma mera coincidência.


Pensando bem, nas últimas semana me senti um tanto irritada, mas não surtei horrores, eu sou o quinto caso comprovado. O próximo e último da lista foi mera dedução. O trânsito era absurdo às 18 horas de terça-feira e uma moça parou o carro do nosso lado. Ela estava se derramando em lágrimas! Depois, pegou o celular e chorava mais ainda. Meu pai tem certeza que era um caso típico de convulsão feminina. Pra mim, ela tinha se perdido e não fazia a menor idéia de onde se encontrava, situação que me acontece com uma certa frequência. Caso você tenha vivenciado uma convulsão feminina por esses dias, dê um alô, quem sabe a teoria pode ser válida para um estudo mais detalhado.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Vergonha

A solidariedade tomou conta dos brasileiros nos últimos dias. A quantidade de doações para as vítimas das enchentes em Santa Catarina ultrapassou o esperado e já lotam os galpões, tanto que a Defesa Civil pede para que as pessoas doem agora apenas dinheiro, pois não há como estocar mais alimentos e roupas. Ela pede também alguns materiais cirúrgicos, como máscaras e luvas. As doações chegam de toneladas no Estado crucificado pelas chuvas dos últimos meses. Pessoas que não tinham o que comer e que perderam tudo da noite para o dia já podem contar com a ajuda de doações que chegam até de Belém.
Nos primeiros dias, os voluntários trabalhavam a todo vapor. Hoje, o número caiu bruscamente e não há pessoas suficientes para fazer a triagem do que está no depósito. Até um morador de rua participa separando roupas e alimentos para os flagelados. Mas, um problema maior surgiu esta semana. Pessoas que não tiveram suas casas arrastadas pelos deslizamentos, pessoas que moram em lugares que não foram atingidos pela enchente, pessoas que têm dinheiro e carro para comprar alimentos no mercado, pessoas que deveriam estar zelando pelo bem-estar de outros estão aproveitando as doações para benefício próprio.
Ontem, o Jornal Nacional, com uma câmera escondida, mostrou a falta de caráter de alguns brasileiros que estavam separando as melhores doações e pegando para si. Uma mulher encheu o porta-malas de seu carro com um carrinho de alimentos tirados do depósito. Uma senhora escolhia um tênis doado para o filho. Soldados do Exército encheram suas mochilas com roupas, sapatos, botas e até lingeries. Além do mais, brincaram com as doações, jogavam uns para os outros, deixavam as coisas fora do lugar e diziam que iam levar sutiãs de presente para a mãe e namorada. Saíram depois sem ajudar na triagem, sem fazer o mínimo esforço para ajudar a quem precisa, sem ao menos serem solidários. A única coisa que fizeram foi lotar as mochilas com objetos que seriam muito úteis a quem teve uma vida levada pelas chuvas. O que me resta é a vergonha de pertencer a mesma espécie que este tipo de gente.
Vejam mais detalhes no vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=rPyhmsVHH_Q

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Sapatada

Incrível mesmo foi a cena de George W. Bush levando uma sapatada em sua visita ao Iraque. Segundo a tradição muçulmana, jogar um sapato em uma pessoa é um dos piores insultos. Nada mais justo, já que o ex-presidente dos Estados Unidos destruiu a pátria do jornalista iraquiano. Logo depois do sapato, o jornalista ainda acrescentou a frase: "É o beijo de despedida, seu cachorro!". Pena que os sapatos não atingiram em cheio a testa de Bush. Apesar dos cabelos grisalhos, seu reflexo continua muito bom. Na verdade, ele merecia uma chuva de sapatos de todos os presentes em seu encontro com o primeiro-ministro do Iraque.
Para alegrar sua segunda-feira chuvosa, assista ao vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=aPypMsO5hMc

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Memórias

Ontem fui rever alguns amigos do colégio. Há anos eu conheço algumas das pessoas que estavam ali. Algumas estiveram na minha classe desde o maternal, outras desde o ginásio, alguns desde o colegial. Já acampamos, já jogamos queimada, já brigamos, já trocamos de estojo, já levamos bronca, já passamos cola na hora da prova. É engraçado como algumas coisas ficam na nossa lembrança, mais engraçado ainda é ver fotos daquela época. O melhor é perceber o quanto melhoramos! Tem dias que eu acordo com algumas dessas lembranças. Do nada elas surgem.
Hoje, por exemplo, acordei com a música que cantamos na formatura do pré na cabeça. Como pode? Isso faz, simplesmente, 18 anos! (Nossa, bateu até uma depressão depois de fazer essa conta). Acho que tivemos tantos ensaios, tivemos tanto que decorar as letras que eu acabo lembrando até hoje. Essa tembám foi uma das primeiras vezes que subi em um palco. Ficávamos em degraus e cantávamos umas cinco músicas. Depois, entrávamos com uma beca azul-claro, recebíamos um canudinho e um ursinho do Papai Noel que estava lá, nos esperando com a sacola cheia. O ursinho, eu tinha até uns anos atrás. Ele tinha o uniforme da escola, um chapéu de formando e um diploma na mão.
Em uma das músicas, só as meninas participavam. A gente tinha uma tiara de flores no cabelo e fazíamos até uma coreografia. Cantávamos uma música sobre flores, que não devíamos machucá-las. Depois, cantamos uma em inglês, depois uma sobre baleias, passarinho. Tudo muito bem produzido e ensaiado aos olhos de uma criança de 6 anos. O tema deveria ser a natureza porque tudo girava em torno. Uma delas eu encontrei na internet. E aqui vai a letra:
Filhote do Filhote (não faço a menor idéia de quem seja)
Moro numa linda bola azul
Que flutua pelo espaço
Tem floresta e bicho pra chuchu
Cachoeira, rio, riacho
Acho que é um barato
Andar no mato
Vendo o verde
Ouvindo o rock'n'roll e o sapo ensaiando
De manhã cedinho
Os passarinhos dão 'bom-dia' pro sol
Cantando
Terra, Leste, Oeste, Norte, Sul
Natureza caprichosa
Tem macado de bumbum azul
Tem o boto cor-de-rosaÁrvores, baleias, elefantes, curumins
E o mundo inteiro está com a gente vibrando
A nossa torcida pela vida a gente vai conseguir cantando
Cuida do jardim pra mim
Deixe a terra florescer
Pensa no filhote do filhote
Que ainda vai nascer
O pior é lembrar como você cantava e como realmente é a letra... Nada tem a ver. Como criança é criativa! Aliás, não só criança. Até hoje, eu canto "Tem gente dentro...", naquela famosa música do Jorge Ben, "Engenho de Dentro".

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

O tempo acaba o ano, o mês e a hora

Luíz Vaz de Camões

O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora.

O tempo busca e acaba onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.

O tempo o claro dia torna escuro,
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grã bonança.

Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Tatu-bola


Debaixo do sol escaldante, descendo a ladeira com o salto plataforma fisgando a batata da perna, com o almoço indigesto no estômago por causa do calor, queríamos rolar como um tatu-bola. E por que não? Por que não conseguimos rolar quando estamos exaustos e cansados e pedindo só sombra e água fresca? Poderia não doer. Poderíamos simplesmente nos enrolar como tatu-bolas e chegar ao nosso destino.


Pensando agora nos tatu-bolas, eu acho que eles estão em extinção. Quando eu era pequena, vivia pegando tatu-bolas no quintal da minha vó. Bastava eu levantar uma pedra e eles apareciam aos montes. Também estavam nos jardins do prédio, nos vasos da escola e na casa de todo mundo. Hoje, ninguém mais vê tatu-bolas. Tudo bem que eu também não escavo mais a terra e nem fico brincando no jardim do prédio, mas mesmo assim, eles deixaram de existir.


Tenho saudades dos tatu-bolas, saudades das casinhas que eu fazia para eles e quando ia vê-los no dia seguinte, já tinham todos morrido. Saudades da aflição que eu sentia quando um deles desvirava-se e começava a andar pela minha mão, saudades dos pequeninhos, saudades do medo que eu sentia dos maiores. Enfim, saudades das coisas boas que só tínhamos quando crianças.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Eu recomendo - Filmes

Sabe aqueles dias em que você quer se afogar em um balde de chocolate? Ou aqueles que a sua cabeça lateja tanto que você quer arrancá-la do corpo? Ou então, nos dias em que você quer mandar seu namorado lá praquele lugar porque ele não consegue entender o que é TPM? Ou nos dias em que o mundo te irrita e que você chora com o comercial de margarina? Se essa é a sua situação, veja Alvin e os Esquilos.


A mistura de filme com desenho já te deixa com a certeza de que ninguém vai te enganar. O que você está vendo é fantasia e ponto. Não existem esquilos que falam. Não é o tipo de filme que o final é lindo, que você chora e que fica pensando "por que isso não acontece comigo?". Não. Esse filme não é pra isso. Ele não te deixa mais deprê do que você já está, ele não te faz chorar, ele não te deixa com raiva. Ele apenas te faz rir e te deixa exclamar alguns "Ahhhs", quando Theodore faz cara de dó. De resto, é bonitinho, gracioso, divertido e leve. Ideal para deixar sua mente livre, longe dos problemas.


Assista legendado, com certeza, as vozes se encaixam melhor aos personagens. Preste atenção nas coreografias. Ria com as travessuras dos três e se delicie com a carinha de Theodore.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Os cosplayers dos animes


Até ontem à noite, estava em dúvida qual seria o tema do meu post de hoje. É, às vezes, eu penso no que escrever no final de semana. Foi quando começou o quadro Central da Periferia, no Fantástico, com a Regina Casé. O tema do momento era qual a periferia é mais conectada à tecnologia. Ontem, ela estava em Fortaleza e mostrava como os jovens de lá são viciados em jogos em rede e adoram gastar suas horas livres nas lan houses. Até aí, tudo bem, se fosse só isso. Assim que ela entrou na lan house, todos estavam fantasiados, parecia uma festa, mas não tinha nenhuma fantasia conhecida, ou aquelas mais comuns de bruxa, fadinha, cigana ou pirata, eles vestiam as roupas de seus heróis dos games japoneses, ou animes.


Cada um tinha a fantasia idêntica ao personagem e além de tudo, interpretavam-no. Descobri que esses são os "cosplayers" (tive que dar uma busca no google), pessoas que não se contentam apenas em jogar, mas querem incorporar seu personagem. A "moda" veio do Japão, claro, que está se tornando cada vez mais um ponto de referência cultural para os jovens de todo o mundo. os cearenses da matéria possuíam mais de uma fantasia e uma das meninas fazia dinheiro com isso, ela costurava e vendia as fantasias.


Ao final da matéria, Regina Casé fez uma interação entre uma cosplayer de São Paulo e a de Fortaleza. A menina de São Paulo, com seus cabelos rosas e lentes de contato vermelhas, disse que tem mais de 50 fantasias, mas que teve que aprender a costurar para bancar seu vício. Já em Fortaleza, alguns cosplayers aprenderam a falar japonês, de tanto que gostam da brincadeira. Uma delas disse que o último evento que teve do tipo na cidade contou com mais de 40 mil pessoas, é como se fosse uma feira, em que alguns vão fantasiados de seus personagens. A menina abriu seu armário e nos mostrou as fantasias feitas por ela e pela avó. A única reconhecível por mim foi a de Uni, o unicórnio do desenho de infância "A Caverna do Dragão". Você deve estar se perguntando por que eu escrevi "jovens" até agora ao invés de crianças? Porque são jovens mesmo, 15, 16, 17, 18, 19, 20 anos. E se você está esperando alguma reflexão sobre o assunto, desta vez, as palavras me faltam. Deixo para vocês tirarem suas próprias conclusões.


quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Pichar é crime

Arte é um conceito muito relativo. Acabei de ler que pichar pode ser uma "intervenção artística" ou um meio de "terrorismo poético". Destruir um patrimônio não tem nada de poético nem de artístico. As definições vieram por conta do caso da pichadora presa por pintar uma parede da Bienal. Para alguns artistas, defensores da estudante gaúcha, o espaço vazio era um convite à manifestação e contravenção, em outras palavras, cada um poderia fazer o que quisesse (como foi o caso do peladão). Concordo que, se o espaço era para isso, a garota tinha sim o direito de pichar, mas se não era, o que ela fez foi crime. Não cabe a mim discutir esse fato específico porque não fui à Bienal e nem sei qual era sua proposta, não sei o que fizeram, só li sobre fatos isolados.
O que discordo plenamente é o fato de pichação ser considerada uma arte. Para mim, não há outro significado para isso além de vandalismo. Pichação é vandalismo e destruição do patrimônio, seja ele público ou privado. Grafite é diferente. O grafite pode colorir a cidade, dar uma cara mais alegre aos túneis escuros e sujos, passar uma mensagem em um muro de uma escola, criar um ponto de referência e levar um pouco de cultura aos cidadãos, como nas reproduções de quadros de artistas famosos no túnel da Avenida Paulista. As reproduções já não são mais visíveis, o tempo deteriorou-as e os pichadores ficaram encarregados de estragar o resto.
Pichar nada mais é do que marcar com letras ilegíveis um local, dizer que o seu grupo, a sua tribo ou sei lá o quê passaram por ali, que você e os seus dominam aquela área, em outras palavras, 'Eu sou mesmo um marginal". Para se manifestar você não precisa danificar, quebrar, nem prejudicar alguém. É possível dar inúmeros exemplos. Na Bienal mesmo, no mesmo espaço pichado, outros grupos tiveram a sua vez. Alguns colaram adesivos no pilares (uma forma bem menos agressiva do que a pichação e até dão um toque especial nos faróis da Paulista), outros promoveram um flash-mob, que são, segundo a Wikipédia, aglomerações instantâneas de pessoas em um local público que depois de fazer uma determinada ação previamente combinada se dispersam tão rápido quanto se reuniram.
Isso é se manifestar, isso é expressar uma opinião. Não pichar, não estragar a fachada de uma casa, nem pintar o último andar de um prédio público. Quer gritar bem alto que você é o dono do pedaço? Faz um panfleto, contrata um carro de som, bota uma melancia na cabeça, fica agindo como louco no meio da rua que todo mundo vai te notar, mas não destrua e não suje a cidade. É por isso que eu penso que a menina da Bienal pode até estar certa em se manifestar naquele espaço, mas, por outro lado, fizeram muito bem em prendê-la. Afinal, é um pichador a menos solto e uma chance a mais de ter a cidade limpa.
Para ver um flash-mob, acesse http://www.youtube.com/watch?v=jwMj3PJDxuo
Para saber mais sobre a pichação na Bienal: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2008/12/04/ult5772u1973.jhtm

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Cadê minha inteligência?

Qual é o auge da nossa inteligência? Se eu paro para pensar nessa pergunta, acredito que o meu já tenha passado. Ou também que ser inteligente é muito relativo. Hoje, eu preciso de uma calculadora para fazer 57 + 28, na escola, eu fazia quase instantaneamente. No colégio, eu sabia a história completa do nascimento dos Estados Unidos e da Guerra do Paraguai. Sabia que aa com aa só podia dar aa (tudo bem, essa é fácil e eu sei até hoje), sabia a hidrografia do Maranhão e quais os Estados brasileiros faziam cultivo da cana de açúcar. Sabia todos os componentes da mitocôndria e quais suas funções, sabia que se misturássemos prata mais sulfato de dióxido de carbono dava sei lá o quê. Sabia fazer equações que ocupavam folhas e mais folhas, sabia Báscara! Sabia as regras de acentuação de uma oxítona e sabia quais os tipos de predicado, sabia o que era o trovadorismo. Poucas coisas que aprendi na escola e no colegial ficaram na memória, em relação aos estudos, claro. A regra da crase é uma delas. Vou compartilhar com vocês: "Vou à, volto da, crase vou usar. Vou a, volto de, crase pra quê". Ou seja, Volto da França, então vou à França, com crase. Volto de Salvador, então vou a Salvador, sem crase. Essa é muito de Professor Pasquale.
Enfim, na faculdade, aprendi mais a encher linguiça nas pouquíssimas provas que tive. Talvez a minha escolha de carreira tenha me emburrecido em certos aspectos. Tínhamos que escrever bonito nas provas de Filosofia e Antropologia. Depois, tínhamos que analisar bastante na Semiótica e interpretar os mais diferentes autores na Teoria da Comunicação. Se a resposta tinha que ser exata, não era problema deixar uma folha embaixo da prova com o gabarito. Se o trabalho era em grupo, a internet fazia a maior parte. Se era preciso escrever uma reportagem, dava asas à imaginação. Poucas foram aquelas feitas na não-ficção. À esta altura, eu já não sabia mais fazer contas, não sabia o que era a Revolução Farroupilha e nem quais são os órgãos do sistema digestivo.
Por isso, acho que emburreci na faculdade. Contentava-me com notas para passar. Um sete era ótimo. Um cinco também, passava, afinal. No primeiro ano, essas notas me incomodavam. Nossa, eu sempre ia muito bem na escola. Ganhei bolsa por ser melhor aluna, tomei café-da-manhã com meus pais e a diretora e uma vez, ganhei uma medalha bonita em uma cerimônia. Um sete era uma tragédia no colégio. Um sete, passou a ser um simples sete na faculdade. E se eu não tinha estudado muito então, um sete era uma alegria. A percepção tinha sido completamente alterada. Claro que aprendi a escrever melhor, a analisar melhor, a criar melhor também. Tudo, na teoria, deveria ser importante para minha carreira, mas, claro, que na prática é tudo bem diferente.
Depois de tudo, o que levamos para a vida mesmo do que aprendemos estudando é muito pouco. Quando era útil, a gente sabia. Quando paramos de usar, perdemos. Há as aulas marcantes, como aquela que tivemos que trazer músicas da época da ditadura ou aquela em que o tema do seminário era "O diabo existe?" e entramos na sala ao som do "Xô, Satanás". Mas, as que realmente vão ficar pra sempre são aquelas que aprendemos para a vida ou a que nos divertimos tanto (como no dia em que uma querida amiga derrubou o chá gelado da Prof. Silvia Suada inteiro na mesa) que será difícil perdermos por simples falta de uso.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Ops, esqueci meu vestido em casa

O dia estava perfeito, o calor agradável, as pessoas não se reuniam há um tempo já, o japonês estava solitário desde 4 da tarde, as frequentadoras se esqueceram de uma parte dos vestidos em casa. O bar estava cheio de são-paulinos endoidecidos, talvez nem o dia nem o local fossem ideais para um amigo secreto, mas eu sempre penso que o que vale é a companhia. A turma demorou para se reunir, o passatempo era olhar e desacreditar nas roupas das distintas moças que desfilavam pelo bar, podia-se observar à vontade sutiãs de onça, decotes até o umbigo, celulites nas pernas nuas e contornos de roupas coladas. Os homens estavam mais interessados no jogo, será que esse era o motivo de tanta falta de pudor? Uma das questões da mesa logo após a chegada de uma de nós, que achava que seu vestido estava muito curto quando saiu de casa (ele mais parecia uma burca perto dos das piriguetes), foi como os pais deixavam as distintas moças saírem de casa daquela maneira. Conclusão: não tinham família ou viviam em um lar completamente desestruturado.


O sufoco para conseguir a mesa foi pouco, o sufoco de quem chegou por volta das 6 e depois foi para entrar no bar, as cadeiras eram um sufoco para se conseguir, o banheiro era o próprio sufoco. Depois de algumas bundadas na cara, depois das piriguetes invadirem a mesa do japa solitário, depois dos uivos ensandecidos pelo jogo, chegaram todas. Quando a hora de trocar os presentes se aproximava, a tensão e vergonha por parte de algumas estava clara de se notar, outras se arrependiam de escolher o bar como ponto de encontro. Afinal, não era uma reunião normal de amigas, íamos trocar presentes, presentes que nada mais eram do que....calcinhas! Literalmente, era expor sua intimidade diante de milhares de piriguetes e bombadinhos de cabeça vazia. Tudo transcorreu sem maiores problemas. Quase ninguém nos notou na mesa estrategicamente posicionada no cantinho, a não ser o japa solitário e seus convidados que acabavam de chegar.


Brincadeiras, risadas, fofocas e ótimas companhias. O encontro foi muito bom, para fechar com chave de ouro um waffle gigante no Joakin's. Agora, fazendo uma pequena crítica, não às minhas amigas, claro, mas aos milhares de mulheres que se submetem ao ridículo para serem notadas. O bar era o São Bento do Itaim, um dos lugares que estão no auge da existência nos dias de hoje, o público, arrumadinho, ricos ou que se passam por, que têm profunda adoração pelo corpo e precisam ser vistos e notados pela sociedade. Sociedade que permite que esse tipo de gente tenha tanto destaque e importância. O que leva uma tia a fazer bronzeamento artificial, tingir o cabelo de loiro branco, colocar botox nos lábios, ficar anoxérica um pouco malhada, encher os seios com milhões de mililitros de silicone e usar um vestido que a deixava mais exposta do que a Globeleza? O que um homem com só um pouquinho de cérebro pensa dessa mulher? Que ela vai dar fácil para ele e que ele nem vai precisar ligar no dia seguinte. Será que é só isso que ela procura? Será que ela não consegue se olhar no espelho e pensar: "assim não, estou parecendo uma vagabunda". Ou será que ela pensa: "legal, estou parecendo uma vagabunda". Qual dos fortinhos com cabelos espetados, óculos escuros e tentando ser fashions conseguiram levá-la para cama a noite passada?