sexta-feira, 31 de outubro de 2008

No videogame


Para se levar menos tempo do caminho casa-trabalho-casa, fazemos o possível e o impossível. E daí que a estação 1 é mais vazia, os bancos sempre estão vagos, as pessoas são mais educadas, mas ela demora 20 minutos a mais do que a estação 2, que é por onde eu estou indo ultimamente. (Eu e o metrô, de novo). Acredito que ela esteja no ranking das mais lotadas de São Paulo, já que o metrô transporta 3,3 milhões de pessoas por dia.


Preciso subir duas rampas para alcançar o embarque. Hoje, não foi a primeira vez de ter a sensação de participar de uma corrida de obstáculos, e eles são inúmeros e dos mais diversificados: morenos, loiras, grávidas, crianças, freaks, rastafaris, vendedoras do shopping, médicos, diaristas, recém-nascidos, negros, doentes. Todos compõem a cara da multidão.


A quantidade que sai do metrô para a rua é infinitamente maior do que a entra por ali, por isso a sensação de você ter que ultrapassar barreiras para chegar ao seu destino. Uma definição mais apropriada do que a corrida de obstáculos é videogame. Isso mesmo, parece que você está dentro de um videogame, em que você é o mocinho escolhido pelo jogador e que todos aqueles rostos são uma selva da qual você precisa escapar. Se esbarrar em alguém perde metade da vida. Imagine o malabarismo que é preciso ser feito para não encostar na multidão e chegar ileso ao final do jogo. Uma vez na plataforma e dentro do vagão já é a segunda fase, mas dessa, ninguém conseguiu passar.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Livros ambulantes

O caminho do metrô ao trabalho é sempre o mesmo, de 7 a 10 minutos alcanço meu destino. Está lá, a tiazinha que vende capinhas para celulares, a senhora do café-da-manhã, a banca de jornal, a sede da Prefeitura para Assistência Social e os milhares de ônibus na avenida. Sempre fico reparando seus destinos, vai que algum dia eu precise me deslocar, já sei para onde posso ir por meio do transporte público. Hoje, passou por mim um ônibus diferente.


Amarelinho, formato diferente dos convencionais, parecia aqueles de filmes norte-americanos. Lá no alto podia-se ler em letrinhas vermelhas: Ônibus-Biblioteca. Pensei comigo mesma que era uma idéia super bacana, nunca tinha ouvido falar antes. Dentro do ônibus, estantes cheias de livros cobriam as janelas. Pesquisei e encontrei: "O ônibus-biblioteca é uma unidade móvel de difusão cultural implantada inicialmente por Mário de Andrade, escritor e primeiro secretário de Cultura da cidade de São Paulo. Em funcionamento desde 1936, com interrupções em função de acontecimentos pontuais, o projeto ainda é mantido pela Secretaria Municipal de Cultura para prestação de serviços à extrema periferia da cidade, onde ainda não existem serviços de bibliotecas públicas, atingindo crianças, jovens, adultos e idosos residentes nessas áreas. Somente em 2006, foram realizados 92.697 empréstimos nos 242 dias de funcionamento".


O ônibus atende entre 3 e 6 mil pessoas por mês e seu roteiro abrange os bairros de Grajaú, Capela do Socorro, Jardim Iguatemi, Rio Pequeno, São Mateus e Cidade Tiradentes. Em dias em que as pessoas não lêem mais ou se deixam absorver pela televisão, o projeto têm a esperança de levar um pouco de cultura para quem não consegue adquiri-la pelas próprias mãos.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Exaustão

O pensamento pára.
O tempo não anda mais.
A cabeça atordoa e os movimentos são mais lentos.
Músculos que nem existiam antes aparecem, doloridos.
A respiração ofegante começa a dificultar a entrada do ar.
No ombro, o peso sentido.
As pernas deixam de nos pertencer.
A mão escapa.
O calor toma conta.
O rosto pega fogo e o suor escorre pela batata da perna.
A coragem cresce e a esperança pede para se apressar.
Os ponteiros do relógio marcam 18:45.
Você pára e sente, enfim, a exaustão.
E ela te persegue até o resto dos dias.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Repugnância

Mais do que dor, repugnância. Repugnância pelas pessoas sem coração. Repugnância pelo lixo que é o ser humano. Repugnância por pertencer à mesma espécie. Repugnância por não poder fazer nada e saber que ninguém vai fazer. Repugnância pelos que usam casacos de pele.


Pelo menos alguém tenta e não custa nada divulgar o trabalho dos outros. A Organização People for the Ethical Treatment of Animals (PETA) faz a sua parte e luta para que os animais não sejam mal tratados. Um dos abaixo-assinados da ONG é contra o uso de peles. No site abaixo, vocês podem encontrar mais informações de como eles extraem a pele dos animais e o sofrimento pelo qual eles passam nas fazendas chinesas. Sua pele é retirada deles ainda vivos. Um horror. Há um filme para quem tiver coragem e estômago. Eu não consegui ver até o fim.




Para quem sentiu vontade de fazer a mesma coisa com os malditos chineses, mas sabe que não é possível, faça sua parte e assine:

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Salvem as estátuas!


O sol do final de semana mereceu uma manhã dedicada só para ele. Por isso, acordei cedo, cedo demais pra mim aos domingos e fomos ao parque. Andamos, abdominais (uma longa série de três), descansamos. No caminho de sempre na volta me deparo com algo bizarro, como muitos que acontecem em grandes cidades ecléticas como São Paulo. Talvez nunca tivesse reparado que há uma estátua na Praça Panamericana, mas dessa vez, ela estava impossível de não se notar. A estátua de Cristóforo Colombo (sim, descobri esse nome graças ao Google) trajava um colete salva-vidas. Desses que a gente ganha quando vai passear de escuna.


Na hora, pensei no meu blog. Uma bela postagem. Até tentei tirar uma foto, mas o farol abriu antes do tempo. Frustrada, já pensei que ficaria sem assunto em plena segunda de manhã. Mas o Google salva nossas vidas e encontrei não só a fotinho, mas também o que significava aquilo tudo. Meu primeiro pensamento foi de um doido qualquer zoando a estátua da praça, Thatha foi mais além, era um protesto contra as enchentes de São Paulo. É, fazia mais sentido.


Comecei a escrever e parei para realizar a minha busca. Descobri que os coletes fazem parte de uma instalação do artista plástico Eduardo Srur, o mesmo que colocou as gigantes garrafas PETs iluminadas na Marginal. O projeto ganhou o nome de "Sobrevivência" e seu objetivo é chamar a atenção aos monumentos já esquecidos da cidade. É, realmente deu certo. Se eu não sabia que existia uma estátua na Praça Panamericana, agora ela está bem visível. Ao todo, são 15 monumentos da cidade que agüentam qualquer enchente.


sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Crianças


As crianças são seres muito engraçados. Como elas podem ser tão espontâneas e verdadeiras? Deve ser a malícia que ainda não as contaminou. Ontem, eu estava no metrô (de novo! Por que tudo tem que acontecer no metrô?), o vagão cheio e fiquei de pé. Parei em frente a duas mães com duas crianças no colo. Uma, mas novinha de chupeta na boca, quase dormia, a outra, de vestido rosa e duas maria-chiquinhas, tinha uma cara de sapeca. No banco do outro lado, tinha uma avó (acredito eu) com uma neném no colo. Linda, gordinha, olhos azuis piscina e toda risonha.


A Maria-Chiquinhas resolveu fazer graça para ela. Deu tchauzinho, mandou beijo. No começo, a neném se deliciava: ria mostrando toda sua gengiva banguela. A Dorminhoca acordou num pulo e ficava observando a cena das duas sem parar. Uma estação depois, a neném cansou de rir das graças bobas da outra e se distraiu com outra coisa. A Maria-Chiquinhas para não perder a atenção começou a fazer caretas, apertar as bochechas, falar imitando mais criança do que ela já era. Não se contentando em simplesmente parar e ficar quietinha no colo da mãe, ela começou a bater com a mão na testa, meio que se socando mesmo. A mãe falou pediu a ela para parar, no que a Maria-Chiquinhas responde: "A neném gosta".


A neném nem estava rindo mais, ela devia estar pensando "O que essa trouxa está fazendo?", assim como somos nós que quase damos cambalhota para um bebê sorrir. Estação Liberdade, entrou um homem engravatado e se colocou na frente da neném. A outra ainda permanecia fazendo suas estripulias e pareceu extremamente irritada quando se deparou com uma barreira. Não acreditei no olhar de ódio que ela lançou ao pobre moço, parecia ter saído daqueles filmes de exorcistas.


Estação Sé, o mundo desce lá. Elas desceram, todas. Enquanto saíam do vagão, a Maria-Chiquinhas parou, olhou para a menininha dorminhoca e estendeu a mão. As duas deram as mãozinhas e sumiram entre o mar de cabeças da plataforma. O que seria de nós se ainda conservássemos a espontaneidade e ingenuidade de uma criança? Com certeza, seríamos mais felizes.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Mais um pouco de Eloá

Não queria escrever nada sobre o caso Eloá, já há reportagens, sensacionalismos e boatos demais sobre o assunto. Mas resolvi expressar a minha opinião em defesa ao Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais). Dizem que a função do Gate é apenas isolar a área e cabe ao GER (Grupo Especial de Resgate) cuidar das negociações durante um sequestro. O Gate faz parte da Polícia Militar, enquanto o GER, da Polícia Civil. Durante uma semana de conflitos entre ambas as polícias e diante da situação de greve da Polícia Civil, estão discutindo que o Gate não devia ter invadido o apartamento. Há um artigo que proíbe a participação do Gate nas negociações e prevê que ele pode apenas decidindo a melhor forma e oportunidade para agir.
Não acredito que o Gate tenha feito um mal trabalho, eles estavam lá, não estavam em greve e fizeram o que deveria ter sido feito já no segundo dia de cativeiro. Não acho que arrombar a porta tenha sido a melhor solução, talvez um atirador de elite tivesse resolvido o problema mais fácil. Agora discutem se Lindemberg atirou antes ou depois da invasão, já ouvi inúmeras versões. Pelo sim ou pelo não, se ele a matou, ele tinha a intenção. Não acho que foi impulso ou algo do tipo. Quem está com uma arma de fogo na mão, sabe das chances de se atirar.
Ontem, foi o depoimento de Nayara. Segundo a menina, houve um tiro bem antes do arrombamento, mas teria sido pro teto. Seu advogado quer R$ 2 milhões de reais do Estado. Dois vizinhos, dizem que ouviram sim um tiro um minuto, aproximadamente, antes da explosão da porta. Agora, fica a dúvida, se Lindemberg atirou mesmo antes da entrada da polícia, o Gate tinha um pretexto e a família de Nayara, não ganhará R$ 2 milhões do Estado. Caso contrário, ela pode levar uma fortuninha para casa. Estaria a testemunha-chave do caso mentindo??

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Na escola

Hoje recebi um e-mail com um ótimo videozinho no Youtube. Era uma aula de História e o professor explicava o que foi a Batalha das Toninhas. Uma aula bem dinâmica e meio teatral, em meio a onomatopéias e barulhos representando focas e tiros, o professor consegue prender a atenção dos alunos e ao mesmo tempo em que ensina, diverte.
Era uma típica aula de cursinho e apesar de nunca ter feito, vejo seu lado positivo e negativo. O positivo é economizar um ano de estudos, claro. O negativo é perder figuras como essa. Não pude conhecer professores extraordinários no cursinho, mas tive alguns muito bons durante o colégio. Lembro-me que na quinta séria uma professora de Geografia ensinava sobre os movimentos rebeldes da época da ditadura. Pensando bem, nem sei porque aprendi isso em Geografia, mas enfim... Durante uma das aulas, elas nos deixou de tarefa levar músicas que foram compostas na Tropicália. Todos pesquisaram e na próxima semana tivemos uma aula musical, junto com as músicas, interpretamos a letra e pudemos entender um pouco mais sobre o que se passava com a censura, os exilados e comunistas. Depois, pintamos um painel representando algo do período.
Na época, a gente nem gostava muito disso. Dava trabalho, requeria tempo. Certa vez, tivemos que interpretar um poema da Literatura Brasileira. Tínhamos que inventar um teatrinho pra ele, foi uma catástrofe, mas bem engraçado. Muitas vezes acabava para as mães dos alunos do grupo fazerem. Eu até gostava. Sempre fui muito ligada em artes, adorava pintar, fazer maquetes, desenhos. Tá bom, vai, era meio CDF, mas não do estilo nerd, porque conversava durante a aula toda. Certa vez, uma professora me suplicou para parar de conversar porque eu ia bem e atrapalhava quem não ia. Uma vez, até fui colocada com a carteira isolada na porta da sala pra não ter com quem conversar. Da outra, fui expulsa junto com um amigo da sala por ficarmos riscando um ao outro.
Já no colegial, o professor não resistiu e me mandou para a diretoria quando me pegou lendo a Boa Forma no meio da apostila. Mas todos superavam a ida à diretoria, era só perguntar para a diretora como estava o netinho recém-nascido dela. Ela se derretia e até esquecia sua bronca. Passar cola era uma coisa bem comum também. Eu adorava. Tínhamos sinais, truques, respostas dos testes embaixo do terceiro banheiro feminino e minúsculos papéis deixados cair no chão acidentalmente. Depois veio a faculdade, não tinha mais sinal, nem recreio, a cola era permitida e você não era mandado pra diretoria mais. Depois veio o primeiro emprego, o salário e um bando de responsabilidades sobre suas costas. Hoje, dá pra entender melhor quando os adultos nos diziam que a escola era a melhor fase de nossa vida naqueles dias em que respondíamos que não gostávamos de estudar. Hoje, as saudades que ficam nos trazem a certeza de que gostávamos e muito.
Para ver o professor Carlos, clique: http://br.youtube.com/watch?v=YypLUBYsLxs

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Loira traveco - Episódio II

E ela apareceu mais uma vez! Descendo a escada rolante com seu cabelo loiro preso em um coque, blusa roxa, um pouco mais comportada do que a anterior, óculos escuros em cima da cabeça e uma bolsinha a tiracolo. Desta vez, só faltou seu companheiro serelepe. Pena que não pude pegar mais detalhes. Aguardem a próxima aparição...

Adeus ano velho...

O final do ano nos pega de surpresa, quando menos se espera já vimos os enfeites de Natal nos shoppings, as compras alucinadas, os planos das festas. E com ele também chega o peso do ano que passou, das alegrias e tristezas vivenciadas, dos dias chuvosos que passamos embaixo do edredon, dos filmes que vimos, das manhãs ensolaradas, da areia quente da praia no verão, das desilusões choradas e das incertezas criadas.
Muitas pessoas esperam que o ano acabe logo para que todos os problemas desaparecem, assim como os fogos da virada. Nunca pensei assim, nunca anseei pelo final de um ano, nem tive a esperança de uma nova época para mudar tudo. É verdade que ainda temos dois meses para o final do ano, o que pode ser muito ou pouco, depende do ponto de vista.
Posso dizer que esse ano eu comecei a pensar assim, comecei a desejar pelo ano que está por vir, a desejar por uma nova fase que deixe para trás todos os obstáculos enfrentados em 2008. Um ano mais simples de se viver, um ano com menos conflitos, um ano de paz, um ano de muitas alegrias e conquistas, um ano para ficar para sempre na memória. Dois meses é pouco tempo para reconquistar o tempo perdido de 2008, dois meses é pouco diante de um ano inteiro que vem pela frente. Nesses dois meses, o ideal é fazer com que o ano que está passando tenha valido a pena e se despedir com classe do tudo que você já não quer mais levar para 2009. Adeus ano velho.


segunda-feira, 20 de outubro de 2008

A arte do espetáculo

Piruetas, saltos, máscaras
Gritos, risadas, palavras perdidas
Música, dança, colorido, alegria
Sonho, imaginação, brincadeira ou fantasia?

Não, realidade muito bem vivida
Na magia passageira sem sentido
Como se o mundo fosse perfeito
E nada mais proibido

Um piscar de olhos
E o azul vira vermelho
A mulher vira homem
Os aplausos estremecem

E num instante, sem demora
Lá no fundo a invadir
Uma pontada de inveja
Do dom daqueles que nos fazem sorrir.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Bela fome

E foi hoje que foi feito o suposto maior sanduíche do mundo. Suposto porque ele foi devorado em alguns instantes e os juízes do Guiness não tiveram tempo nem de registrar o recorde. Os gulosos são iranianos e aguardavam com tremenda ansiedade pelo término do sanduba. Enquanto mediam, uma multidão se instaurou e dovorou em poucos instantes o gigante sanduíche de 1500 metros com 700 quilos de carne de avestruz e 700 quilos de carne de frango. Famintos.


quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Pra lá de blasé

Ufa, até que enfim a gripe me deixou. É horrível quando ficamos como ficamos com o corpo doendo e a cabeça sem poder pensar. Chegamos ao ponto de inércia e somos levados por quem nos mandar. Mas não é preciso estar gripado para as pessoas agirem dessa maneira. Hoje, mais do que nunca, posso perceber o quanto as pessoas são inertes. Elas não reagem. Podem ver algo errado acontecendo, mas ao invés de reclamar, discutir ou brigar, elas se calam. E se calam porque é mais fácil, dá menos trabalho, não toma seu tempo.


É por isso que uma empresa de telefonia celular coloca serviços a mais na sua conta, é por isso que o som do vizinho fica ligado até às duas da manhã, é por isso que aquele carro continua estacionando no seu rebaixo, é por isso que pisamos no cocô do cachorro dos outros. As pessoas não contestam.


Segundo o sociólogo alemão, Georg Simmel, os indivíduos que vivem nas metrópoles são rodeados de estímulos que exigem o máximo de seu sistema nervoso e de sua concentração. As reações são tão imediatas e intensas que uma hora elas cessam e o indivíduo se torna anestesiado. Ela já não se importa com o que acontece a sua volta, não reage e perde sua percepção de emoções e objetos. A famosa atitude blasé.


E a cada dia que passa, vemos mais isso acontecer. Não adianta deixar pra lá, não adianta relevar. Se não nos importarmos, aquilo vai continuar errado, vai continuar acontecendo e pode prejudicar mais pessoas, além de você. A indiferença é a pior atitude que podemos encontrar em um ser humano. Grite, reclame, faça acontecer. Mudar o errado também depende de você.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Elas ou eles

Corpão, alta, loira, rabo de cavalo no alto da cabeça, óculos escuros, roupa colada no corpo, salto alto, bumbum empinado, seios à mostra, lábios carnudos. Lá ia ela entrando no metrô. Mas, um momento. Que boca esquisita! Que rosto grande! Que cabelo artificial! Que corpo de homem! E era isso mesmo o que vocês estão pensando. Um homem. Lá ia ele entrando no metrô. Corpão, alto, loiro, rabo de cavalo, óculos escuros, roupa colada no corpo, salto alto, bumbum empinado, seios à mostra, lábios carnudos. Um homem fantasiado de mulher. Parecia brincadeira, mas não era.
Sua boca era maior e mais articificial do que a da Karina Bach; seus seios, durinhos embaixo do decote; suas unhas, mais bem feitas que as minhas; seu bumbum sem nenhuma celulite, revelando que só os homens conseguem essa façanha. E como se equilibrava em cima do salto! Parecia desfilar para uma platéia que não conseguia desviar o olhar.
Depois da primeira impressão, os espectadores conseguiam notar que, atrás dele, seguia um outro moço saltitante. Magrinho, pele e osso, mulato claro, cabelo ruim escondido por um boné com estampa de glitter. Parecia a Lacraia quando tentava acompanhar os passos do travesti. Regata justa no corpo, calça jeans presa por um cinto de tachinhas, ele levava uma maletinha prateada em uma das mãos, iguais a essas que usamos para guardar maquiagem e bijuteria.
O trem chegou, os dois entraram, sentaram-se e continuam a animada conversa, sem se importar com os olhares repreensivos, assustados, acusadores e intrigados dos passageiros do vagão. O Loirão olhava para suas unhas, a fim de descobrir alguma falha. A Lacraia puxava conversa a todo instante. Chegaram ao seu destino e ambos saíram da estação assim como entraram, sem se abalar com o resto do mundo.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Meio a meio


Simples seria se todo divórcio fosse como o do casal cambojano. Eles decidiram partir a casa ao meio para evitar os conflitos que toda separação pode ocasionar. Só resta saber aonde a outra metade foi parar.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Jingle Bell


Lá vem ele outra vez. Mal nos esquecemos do Natal anterior e já temos que nos preocupar com o seguinte. Os enfeites já estão sendo vendidos, os shoppings começam a ser enfeitados, as propagandas com promoções natalinas acabam de ser criadas. Qual é o espírito verdadeiro do Natal afinal? O consumismo parece ser a regra básica dessa época em que pessoas que nem se gostam precisam sorrir enquanto passam o peru pela mesa.


No meio dessa hipocrisia generalizada, vemos famílias que só se reúnem para o Natal, vemos mães enchendo o carrinho de compras para fazer um banquete na ceia e provar que o seu é melhor do que o da casa da sogra no ano passado, vemos lojas abrindo durante a madrugada para aqueles que deixam o presente para a última hora, aliás, todos deixam.


Nunca gostei dessa época do ano, acho que nem quando criança. Só lembro da bagunça que ficava a casa e do galo que fiz batendo a cabeça não sei aonde. Hoje, é mais chato ainda. Sempre reclamei, mas nunca parei pra fazer algo que valesse a pena. Já que o meu não é especial, pretendo tornar o de algumas pessoas especial. Infelizmente, não posso dar uma festa ou me vestir de Papai Noel para levar presentes para as crianças pobres. Mas farei a minha parte ajudando em algo, seja participando de alguma ceia em algum abrigo, seja organizando uma festinha na creche, qualquer coisa.


Por menor que seja o gesto, farei o Natal de alguém muito mais feliz e é isso que importa. Para mim esse é o espírito do Natal. Quem conhecer alguém que faça algo desse tipo, me avise. Ou se alguém quiser participar comigo, está mais do que convidado. Para aqueles que curtem essa época, também há simples atitudes que podem ser tomadas, como pegar uma cartinha nos Correios para o Papai Noel de uma criança pobre. Faça sua parte e não permita que a hipocrisia tome conta do Natal.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

E caiu a chuva sobre a terra quarenta dias e quarenta noites - Gênesis — c. VII, v. 12

Não é possível! Só chove nessa cidade. Azul não pode ser mais referência da cor do céu. A mãe pergunta para o filho: - Filho, que cor é essa? E ele responde: - Azul, mamãe. E a mãe impressionada: - Muito bem, Querido!! Azul da cor do céu. E o filho: - Não, mamãe. O céu é cinza mesmo.



Canção da garoa - Mário Quintana

Em cima do telhado

Pirulin lulin lulin,

Um anjo, todo molhado,

Soluça no seu flautim.

O relógio vai bater:

As molas rangem sem fim.

O retrato na parede

Fica olhando para mim.

E chove sem saber porquê

E tudo foi sempre assim!

Parece que vou sofrer:

Pirulin lulin lulin...

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Pode beijar a noiva


No ano em que tive mais casamentos em toda a minha vida, parei para refletir algumas das palavras tradicionais ditas pelo padre na hora do altar. No total, foram cinco e um ainda está por vir, todos foram religiosos e por isso tiveram a tão esperada troca de alianças, em que a noiva soluçando jura fidelidade ao recém-marido trêmulo de emoção.


Não ouvimos mais a frase bombástica, "se tem alguém contra, que fale agora ou cale-se para sempre", aquela que todo mundo um dia queria estar presente em um desses casamentos de Hollywood, em que o mocinho chega e rouba a noiva do altar. Mas, isso nunca aconteceu na vida real ou pelo menos, nunca soubemos de um conhecido, amigo do primo do pai da fulana que foi em um casamento assim.


Sábado passado foi o meu quinto, a noiva linda, como sempre, a igreja lotada e bem decorada. Chegou a hora do juramento: "Noivo, promete ser fiel, amar e respeitar a noiva, por todos os dias de sua vida?", "Sim.", "Noiva, promete repeitá-lo, amar e ser fiel, bla bla bla bla", "Sim". Ao meu lado, minha amiga vem com a pergunta: "E se alguém fala não, o que acontece?". Não sei, não sei o que acontece. Respondi pra ela que ninguém iria falar que não. Não pode. Você está lá para falar que sim. Você foi até lá para ouvir um sim. Você paga uma fortuna por esse sim.


Os discursos dos padres variam em todos os casamentos, nos mais informais, ele brinca com os noivos, no que fui madrinha, ele até esquece o nome dos noivos, mas uma das mudanças mais significativas ao longo dos anos é o final do sermão. Quando eu era pequena, ele dizia: "Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte os separe". Quando cresci, passei a ouvir algumas variações e o lance da morte foi extinto de vez: "O que Deus uniu, o homem não separa" ou "O que Deus uniu, ninguém separa" ou até mesmo "Que o homem não separe". Ou seja, o homem virou um problema para o matrimônio. Ele mesmo quer casar, mas ele mesmo é o responsável pela sua dissolução. De que valeram então, todos os sins deixados no altar como juramento? De que valeram os tensos preparativos, as mãos dos convidados abençoando o casal, as flores enfeitando a igreja e as fotos amareladas no álbum velho? A certeza não deveria ser infinita? E o para sempre, aonde foi parar?


Em mundo, em que, cada vez mais, os valores estão perdendo a sua força e o nós cede seu lugar para o eu, a instituição do matrimônio também perde sua força. Hoje, não precisa ser casado para ser marido e mulher. Hoje, homens e mulheres são casados três, quatros vezes. Hoje, filhos de cinco casamentos do pai brincam em volta da árvore no Natal. Será que não perdemos um pouquinho de nós mesmos durante todas essas relações? Será que não é possível acertar de primeira?


Para aqueles que presenciei e abençoei durante esse ano, desejo que sejam felizes para sempre. E nada desse papinho que "seja eterno enquanto dure".

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Ah, o verão...

Que o sol de hoje esquente todas as almas geladas de ontem e derreta os problemas do mundo. Se não fosse por ele, diria que a semana que começa ruim, acaba pior. Se não fosse por ele, o avestruz continuaria com a cabeça no seu buraco. Se não fosse por ele, não haveria sorrisos estampados no rosto. Se não fosse por ele, não haveria esperança de um final de semana colorido.


Segundo uma amiga minha, uma conjunção astral desfavorável pode nos pegar no momento mais vulnerável e ser arrebatadora. Se os astros querem, quem pode ir contra? Mas, afinal, qual é o maior deles? E se ele está tão radiante, quem pode duvidar de que veio para alegrar os corações?


A primavera chuvosa, prevista pelos metereologistas, pode se transformar em períodos de tempestade e até de ciclones. Ciclones que esperamos ser breves, ciclones que fazem o céu ficar preto e a chuva cair por todos os lados, sem lugar para fugir. Ciclones que devastam e varrem tudo que lhes cruzam o caminho, apenas a mais resistente das casinhas pode permanecer ali, esperando pelo sol para secar as últimas gotas da tempestade. Que chegue o verão e desmanche todas as nuvens pretas espalhadas pelo meu céu.
"Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu". Cecília Meireles

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Avestruz


A vontade é de criar uma bolha e não ouvir o que os outros estão dizendo, muito menos dizer algo a eles.


A vontade é de dormir e acordar quando tudo for cor-de-rosa.


A vontade é ficar de castigo no canto da sala como na infância.


A vontade é de ficar em casa pasmando.


A vontade é de estalar os dedos e transformar o mundo.


A vontade é de colocar a cabeça debaixo do edredon.


A vontade é de ser um avestruz que não tem que explicar porque vive com a cabeça enfiada no buraco.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

As alucinantes noites dos camicases

Recebi este e-mail de uma amiga com o assunto "Chocada". Não sei de onde a matéria foi tirada, por isso não darei os créditos, mas acho que vale reproduzi-la por aqui. Chocada é a palavra certa para este tipo de comportamento.
Um novo perfil de paciente chega ao consultório dos infectologistas: jovens com menos de 25 anos que, embalados por álcool e drogas, deixam a camisinha de lado e se contaminam com o HIV

'Sempre soube da importância da camisinha. Minha mãe insistia para que eu nunca saísse de casa sem ela. Certa vez, na escola, uma professora demonstrou como usar o preservativo. Achei patético. Aquilo não era para mim. No fundo, achava que aids era coisa de gay. Aos 16 anos, no início da minha vida sexual, eu até usava camisinha, com medo de engravidar as meninas. Depois, desencanei por causa da bebida. Sob o efeito da cerveja e do uísque, aí é que a camisinha não saía mesmo do meu bolso. Meus amigos também agem assim. Há três semanas, eu descobri que tenho o vírus HIV. É óbvio que eu tomei um susto. Mas agora estou mais tranqüilo. Daqui a uns dias vou começar a tomar o coquetel contra a aids. Sei que terei uma vida normal."

O relato do estudante paulistano A.K., de 21 anos, é aterrador. Impressiona pelo descaso com o sexo seguro e, agora, pelo modo como enfrenta a infecção pelo HIV. Ele não é uma exceção. Rapazes e moças como A.K. se tornaram figuras freqüentes nos consultórios dos grandes infectologistas brasileiros: jovens de classe média, com menos de 25anos, contaminados pelo vírus da aids em baladas regadas a muito álcool e drogas. "Em 28 anos de consultório, nunca vi tamanho desdém pela proteção sexual", diz Artur Timerman, infectologista do HospitalAlbert Einstein, em São Paulo. Oficialmente, a ocorrência de aids entre os jovens de 13 a 24 anos mantém-se estável nos últimos cinco anos. Eles representam 10% do total de infectados no país a cada ano, o que equivale a cerca de 3.000 casos. Até recentemente,os portadores do vírus com menos de 25 anos que chegavam ao consultório do infectologista David Uip, do Hospital Sírio-Libanês, eram, no máximo, três por ano. De 2007 para cá, o médico passou a atender, em média, um paciente com o mesmo perfil por mês.
Em algumas situações, o comportamento irresponsável adquire contornos suicidas. Comum entre os gays americanos desde os anos 90, vem ganhando força no Brasil a prática do bare-backing, em que homossexuais masculinos se expõem voluntariamente ao vírus da aids em relações sem proteção. A expressão barebacking pode ser traduzida como"cavalgada sem sela". Nessa roleta-russa da aids, um portador do HIV é chamado a participar de uma orgia. Ele pode ou não receber dinheiro por isso. Quando é contratado, o valor fica em torno de 3.000 reais. Batizado de "gift" (presente, em inglês), o soropositivo não é identificado. Todos os outros convidados, porém, sabem que na festinha há pelo menos um portador do HIV – e se divertem com o risco de ser infectados. Essa maluquice é protagonizada, em geral, por homens de 16 a 30 anos. Aos 48 anos, R.F. está contaminado há quinze. Já participou de uma dezena de barebackings. Num deles, foi o "presente", mas pediu para ser identificado. "Apesar do lenço vermelho amarrado no braço, oque denunciava o HIV, muitos quiseram ter relações comigo sem camisinha", conta R.F.
As drogas que alavancam o comportamento sexual irresponsável – tanto de homossexuais como de heterossexuais – podem ser pesadíssimas. Além da onipresente cocaína, consome-se bastante o chamado special K, um anestésico de cavalo com efeito alucinógeno arrebatador. Outra droga que começa a despontar no Brasil é o crystal. Derivado da anfetamina, ele é muito comum nas festas gays. Nos Estados Unidos, onde o seu uso está amplamente disseminado, o crystal é alvo de campanhas antiaids por favorecer enormemente o sexo sem proteção. Um estudo publicado no Journal of Acquired Immune Deficiency Syndromes mostra que o crystal aumenta em 46% o risco de infecção pelo HIV. O álcool, por sua vez, quando consumido em excesso, quintuplica a probabilidade de um jovem fazer sexo sem proteção. Com a palavra a gaúcha C.A., secretária de 28 anos:

"O abuso de bebida na adolescência me levou a ter aids. Quando completei 18 anos, conheci um cara que adorava beber e eu passei a acompanhá-lo nas bebedeiras. A partir do nosso terceiro encontro, abandonei o preservativo. O álcool distorcia a minha visão da realidade. Dois meses depois do início do relacionamento, nós nos separamos. Sete anos mais tarde, por causa de uma febre alta que não cedia, descobri que estava com aids. Desconfio que peguei a doença daquele namorado. Mas não tenho certeza porque depois dele voltei a fazer sexo sem proteção. Infelizmente, existe a possibilidade de eu ter infectado outras pessoas sem saber".

Um estudo conduzido pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo revela que 44% dos brasileiros recém-diagnosticados com HIV (14.000 pessoas ao ano, segundo as estatísticas oficiais) só descobrem a infecção com a manifestação dos primeiros sintomas da doença. Em média, da infecção aos primeiros sinais da doença transcorrem sete anos. Ou seja, ao longo de todo esse período, homens e mulheres infectados podem pôr a vida de outras pessoas em risco – além da sua própria. Graças à evolução dos coquetéis de remédios, os jovens de hoje formam a primeira geração que não presenciou a devastação causada pelo HIV nos anos 80. "Para essa juventude, a aids parece ser uma realidade distante", diz o sanitarista Alexandre Grangeiro, coordenador do trabalho da USP. "Além disso, como os retrovirais estão mais eficazes, os jovens superestimam os efeitos dos medicamentos e acreditam que podem tratar a aids como um mal crônico qualquer." De fato, tais remédios têm tudo para garantir uma longa vida ao jovem A.K., o estudante de 21 anos que acaba de se descobrir portador do HIV. A "normalidade" que ele imagina, no entanto, é uma ilusão. Apesar de todos os progressos na área farmacêutica, conviver com o HIV não é tão simples assim. Os remédios só fazem efeito se tomados à risca, apresentam efeitos colaterais desagradáveis e a quantidade pode chegar a nove comprimidos diários. O melhor é não ter de tomá-los. Muito melhor é ter responsabilidade.